"Pietro Ubaldi e sua época"

in (Revista Terceiro Milênio n.2 - Abril e Maio de 1952)

José Américo Motta Pessanha

    Toda época tem seu homem - a própia história nos revela isso. Há sempre, como que uma lei infalível fazendo concentrar em alguém as necessidades de seu tempo. Há sempre um intérprete dos anseios humanos.  Nos períodos críticos, sobretudo, quando parece não mais haver salvação, quando os problemas surgem como insolúveis e tudo parece perdido - eis que alguém lança-se à frente, no comando, a indicar os novos rumos.. E os homens, apesar de toda a liberdade de que se julgam possuidos, não sabem por si mesmo decidir, esperando ansiosos, buscando aflitos uma orientação. E vemos então o fato interessante de, como numa concentração de energias, corporificarem-se em alguém os anseios de uma época. E no meio da desordem, do caos, uma voz se eleva, poderosa e decidida, abalando o íntimo dos que a ouvem e que por ela, instintivamente, esperavam.

    Foi assim no tempo de Joana d'Arc. O reino da França parecia perdido. Derrotas e misérias por toda a parte. Desorganização. Contudo, o povo esperava por alguém que viesse erguê-lo. O povo sentia essa necessidade e como que exigia que ela fosse satisfeita. Pairava uma expectativa cheia de angústia e uma tênue esperança. Diz Michelet que já uma profecia de Merlin anunciava a salvação do país por uma Donzela. E aquela névoa de pressentimentos se adensa, os lamentos  do povo se concentram. E surge Joana. A Camponesa humilde e tímida que se transforma em soldado. Disse ela própria o segredo desta mudança: a lástima que havia no reino de França!

    Hoje, a situação de desordem, de angústia e destruição se propagou pelo mundo, a humanidade aturdida teme encarar o futuro. Um rápido exame, superficial, sentencia infalivelmente: tudo perdido! A realidade atual é desanimadora: em tudo, em torno, misérias e destruição e a sombra da incerteza de uma sobrevivência, diante, das ameaças terríveis de novas guerras que se aproximam.  O homem tenta esquecer tudo isso, desejaria esquecer tudo isso - e daí a corrida louca atrás dos divertimentos, da embriaguez dos sentidos que amortece, ao menos por instantes, a tensão íntima. Mas a realidade cruel permanece, embora se fuja dela. Inútil fechar os olhos fugindo a contemplação de sua face horrenda!

    Era preciso que alguém falasse. Quando tudo - mais do que nunca - parece perdido, é necessário - há uma exigência em cada coração - que alguém erga sua voz indicando novas diretrizes. Quando pela frente se nos depara uma sensação de vácuo, de desconhecido, de insolúvel, a impressão de um abismo insondável, é preciso que alguém, destemidamente, se adiante, rasgando esses véus que obscurecem o amanhã e apontando um novo horizonte. 

    Havia uma lástima imensa pairando sobre o mundo. E a névoa de angústia se adensou, os lamentos se concentraram. Alguém iria surgir no cenário humano. Uma voz poderosa que abalasse os que a ouvissem e que por ela, instintivamente, esperavam. Alguém que pudesse convencer, falando a cada um na linguagem que lhe é própria: ao simples, através do sentimento, ao intelectual e ao cético, através da mente. Alguém que viesse abalar a alma humana adormecida, quando nem as próprias crenças religiosas conseguem arrastar verdadeiramente as massas. Alguém que sintetizasse e exprimisse os anseios da humanidade - agora para resolvê-los e orientá-los. Alguém que mostrasse ao homem as verdades - novas ou já conhecidas - porém, de uma forma persuasiva, convincente, capaz de sacudi-lo e erguê-lo.

    É assim mesmo: quando tudo parece perdido, eis que surge alguém. Como numa concentração de energias, as necessidades e as angústias de um povo se corporificam, concentrando-se em um homem - que vem se colocar à frente de sua época, a fim de conduzi-la.

    Foi assim no tempo de Joana d'Arc. A França exigia alguém e surgiu a Donzela prometida. Hoje, a humanidade precisava de Pietro Ubaldi. E ele veio. 



                        José Américo Pessanha, Clóvis Tavares, Pietro Ubaldi e Chico Xavier, tendo ao fundo Rubens Romanelli e sua esposa.                                     Dia 18 de agosto. Dia do Professor Pietro Ubaldi.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog