A NOVA CIVILIZAÇÃO DO TERCEIRO MILÊNIO E A FUNÇÃO HISTÓRICA DO BRASIL NO MUNDO 

Por PIETRO UBALDI (especialmente para 'Terceiro Milênio')

(Tradução de CLÓVIS TAVARES) 

in (Revista Terceiro Milênio n.4 - Agosto e Setembro de 1952)   


  Propomo-nos aqui observar o futuro do mundo nos próximos cinquenta anos e nele a posição histórica do Brasil. Procuramos agora fazê-lo mais ordenada e completamente, o que não foi possível nas revistas e jornais brasileiros em várias entrevistas.

    É evidente que toda causa contém, em si mesma, seus efeitos, toda semente sua árvore e frutos, cada embrião seu tipo biológico. Das causas que temos à vista podemos, pois, facilmente deduzir o efeito, do presente o futuro. Tudo isso, também, dentro das limitações de um puro processo racional, prescindindo de pesquisas paralelamente conduzidas por inspiração, pelo nosso método da intuição.

    A trajetória da história do mundo já está traçada até hoje. O amanhã não pode deixar de ser uma continuação, é evidente, porquanto toda trajetória tende a prolongar-se na direção iniciada. O hoje é semente do amanhã. Essa semente está, antes de tudo, na orientação espiritual. E espiritualmente, hoje, o mundo é materialista. Acredita-se somente na ciência nesse sentido, na riqueza, na força. O grande produto da ciência é a bomba atômica. Não poderia produzir senão meios de destruição uma ciência dirigida por tal psicologia. 

    Quem conhece as leis da evolução sabe que o que une em amor e paz está no caminho que conduz a Deus e o que divide em ódio e guerra é obra de Satanás. Este tem pressa de recolher os frutos de séculos de materialismo e hoje crê recolhê-los. O mundo está saturado do seu egocentrismo rebelde a Deus. Sabemos, porém, que as forças do mal, que são ignorantes, estão sempre num plano inferior às do bem e que este as comanda e as dirige aos seus objetivos. Olhemos, agora, além dos horizontes normais da miopia humana.

EVIDÊNCIA DO PLANO DE DEUS

    Se a bomba atômica, última descoberta do nosso tempo, pode aparecer como uma punição em que o homem pagará duramente, ela, nas mãos de Deus, como todas as coisas, tem uma função de bem, isto é,  a de liquidar uma perniciosa civilização materialista para dar lugar à nova civilização do espírito. A próxima grande destruição bélica, se é obra de Satanás, tem, como a traição de Judas preparou a redenção, a tarefa de preparar a nova civilização do terceiro milênio. 

    Para quem sabe ver, o plano de Deus é evidente. É vontade Sua que no ano 2000, deva surgir uma nova civilização do espírito, em que Seu Evangelho seja vivido seriamente e para qual Cristo não tenha morrido em vão. E essa hora é chegada. A essa meta se pode chegar por dois caminhos: ou corrigindo-se, espontaneamente, mudando de psicologia, transformando-a em amor evangélico, ou continuando a trajetória iniciada, com uma guerra que destruirá o Hemisfério Norte e sua civilização.

    De qualquer modo o plano de Deus se realizará. No primeiro, pela compreensão rápida de homens inteligentes; no segundo, pela compreensão lenta dos involvidos, através da dor. Infelizmente, o tipo biológico hoje predominante não sabe compreender senão através da própria dor; e somente uma tal guerra pode produzi-la em dose e forma tais que penetre em toda parte e seja por todos compreendida.

    A parte o fato de que, sob a direção de Deus, tudo isso pode assumir funções seletivas e eliminatórias, como purificação do mundo dos piores, se existe uma dura lição, ela é proporcionada ao duro entendimento humano, a fim de ensinar a grande lição de que a guerra é inútil para resolver as questões, que a guerra somente destrói, que mata a todos, inclusive o vencedor, que a guerra é loucura e prejuízo para todos, E esta será a maior conquista moderna, isto é, que o mundo chegue a compreender tudo isso; e se não houver outro modo de chegar a essa compreensão, a bomba atômica acabará por tornar-se uma descoberta útil, embora muito dolorosa. Tudo, nas mãos de Deus é útil para o nosso bem, inclusive as obras de Satanás.

    E assim, na nova era, o homem haverá compreendido a que conduz a guerra (já deveria havê-lo compreendido pelas últimas duas) e poderá encaminhar-se a formas superiores de civilização. 

    Aprenderá o homem, a tempo ? Esperemo-lo. Parece difícil, no entanto. Há muitos anos já, foi a 10 de maio de 1932, fiz chegar a Mussolini, então no poder, uma mensagem particular que, entre outras coisas, dizia textualmente:

    "Fazei tudo para salvar a Europa. Evita, com todas as tuas forças qualquer guerra. Não há razão humana que possa justificar, hoje, uma guerra que, com os atuais meios de destruição, produzirá uma ruína capaz de marcar o fim da civilização européia, atraindo a invasão asiática e impelindo, finalmente, a civilização a emigrar, após tremendos cataclismos, para as Américas".

    Mussolini leu, agradeceu e seguiu outro caminho. E tudo isso, hoje, se está realizando. Essa triste experiência nos torna um pouco céticos quanto à inteligência humana. E então, não restará ao mundo senão o segundo caminho, o da dura lição. As duas forças, atualmente contrárias no mundo, se encontrarão. Saber quem vencerá pouco importa, porquanto o vencedor cairá morto sobre o vencido. Certamente o mundo caiu a grande profundidade e a imensa distância das superiores leis da vida, para que seja necessária a bomba atômica a fim de fazê-lo aprender de novo e mudar de caminho. A História, porém, sabe e hoje lho impõe.

    O que atualmente importa, a única boa coisa que se pode fazer é preparar o advento do mundo novo, o que de um ou de outro modo é certo. Deus é bom cirurgião e, pelo ano 2.000, a operação estará concluída.

    

O SIGNIFICADO DA TERCEIRA IDEIA

    Olhemos as coisas mais de perto. Os interesses egoísticos e materialistas das duas partes opostas do mundo, por estas somente movidos, entrincheirar-se-ão atrás de duas ideologias para justificá-los. Embora nelas se acredite relativamente, porque o materialismo calcula vantagens e não tem crenças, as duas ideologias são a verdadeira força da história. De um lado, a verdade da justiça econômica inquinada pelo erro do absolutismo de Estado. Doutra parte, a verdade da liberdade individual, maculada pelo erro da injustiça econômica. Está, desse modo, a verdade dividida em duas partes e cada metade do Hemisfério Norte possui dela uma parte. A verdade completa não pode provir senão da fusão das duas partes. E o amplexo será bem duro. Sendo o imperialismo comum a ambas as partes, embora sob diferentes formas, é fatal o choque, inclusive porque são elas complementares. A Vida tem necessidade de ambas e elas não podem abraçar-se para um desposório, antes, procurarão destruir-se mutuamente. Dada a evolução do tipo biológico humano atual, não existe hoje, infelizmente, menos dolorosa e mais inteligente forma de seleção.

    A História, porém, que é inteligente, recolherá seus frutos, fazendo com que do choque de massas sobreviva somente o melhor (a parte verdade), eliminando o pior (a parte erro). Libertando-se do absolutismo estatal e da injustiça econômica atingir-se-á a justiça econômica da liberdade individual. Eis as conquistas necessárias para se atingir a nova civilização do terceiro milênio, que não admitirá nem infelizes esfaimados nem escravismo de Estado. E também neste caso, como no da bomba atômica, os antagonismos serão construtivos de bem. Satanás, pois, está sempre a serviço de Deus.

    De tudo isso se conclui quanto, nas Mãos  Divinas, seja construtivo o nosso período de tão intensa destruição. O homem pode atormentar-se como quiser, mas, não pode impedir a evolução e com sua dor só pode contribuir para que ela se realize. Quem comanda é Deus e a Sua Lei.

    Não obstante serem dois os litigantes, a vitória será de uma terceira ideia: a de uma fraterna compreensão e colaboração, numa livre convicção de evolvidos, num totalitarismo mais inteligente, para a vantagem de todos. Só a terceira ideia, que é a do Evangelho, será a ideia da nova civilização.

    A História, porém, inteligente, recolherá também seus frutos noutro campo: o religioso.

    Uma invasão comunista da Europa , que está às portas da Rússia atéia, não poderá deixar de atingir Roma, a apetecível meta do centro do catolicismo. E também isto, que parece um perigo para a Igreja, será sua grandeza. É certamente uma merecida correção pelos séculos de acomodações contra o Evangelho, mas, isso servirá para melhorar, naturalmente em sentido espiritual, o único sentido em que se pode, em tal caso, entender o melhor. Também, em 1870, a perda do poder temporal pareceu um prejuízo e foi uma vantagem, imposta por Deus, no plano espiritual, embora não desejado pelos homens ligados aos seus interesses no plano material. Recordemos que, nesse campo, toda derrota na terra é uma vitória no céu. Também desta vez haverá uma depuração, uma purificação, uma espiritualização, isto é, um progresso, uma aquisição da única verdadeira potência espiritual. Uma Igreja, assim purificada, será mais elevada e, portanto, mais poderosa em Deus.

    A função do comunismo ateu é, pois, justamente o contrário do que ele mesmo imagina: é uma destruição construtiva, como são todas as destruições operadas pelo mal a serviço do bem. Como a bomba atômica, no fundo, é um meio para obrigar o homem a subir para uma civilização mais alta, assim também o comunismo trabalha para impelir o mundo para o triunfo de Cristo.

    Até lá, o comunismo constringe as nações capitalistas a realizar, sempre em maior escala, a justiça econômica, porque estas bem sabem que são as desigualdades e a miséria o terreno em que ele prospera; por isso o capitalismo procura afastar essa ameaça, avizinhando-se, por amor ou por força, da realização dos princípios do Evangelho. Das ruínas de um choque, pois que tais paliativos não resolvem nesse sentido, nascerá uma Igreja espiritual maior, reconduzida ao Evangelho, na dor reconstruída em pureza, como Cristo a quer, universal, não por imperialismos absolutistas, mas por compreensão e bondade, elevada à unidade de um só rebanho e um só pastor: CRISTO.

    Quanto mais observamos o desenvolvimento atual da história, mais vemos como Satanás ignora o pensamento de Deus, como uma infinita sabedoria guia, por todos os modos e em toda parte, a infinita ignorância humana para o progresso, pelo bem e a salvação do mundo.


O BRASIL NO APOCALIPSE MUNDIAL

    Observemos, porém, ainda mais particularmente. 

    Qual será a posição do Brasil nesse apocalipse mundial? É certo que o Hemisfério Norte está ameaçado de ser completamente destruído. Os dois antagonistas têm meios para isso fazer reciprocamente e a Europa estará entre eles, como habitualmente, na condição de campo de batalha.

    No Hemisfério Sul, a África e a Austrália provavelmente seguirão os destinos das nações européias de que dependem e a que estão ligadas. Somente a América do Sul está afastada e independente e, no fundo, também inocente da criação da bomba atômica. E isso também é importante, porque esta é a hora do juízo, é a hora apocalíptica do fim do mundo: a hora em que este é julgado e dele nasce um outro, novo e melhor. Poderá, pois, ser a América do Sul a herdeira da civilização européia ?

    A civilização caminhou do Egito para a Grécia, da Grécia para Roma, de Roma para Europa e da Europa para as Américas. A grande mãe, porém, é sempre latina e a herdeira será latina, a raça até então inocente das três guerras: duas já havidas e uma próxima, que tem a tarefa de liquidar a velha civilização. E nesta destruição do passado o futuro espera os mais jovens.

     Tudo isso se refere, de perto, ao Brasil, a que pode estar confiada agora uma grande posição na história do mundo. Há quarenta anos visitando todo o continente Norte-Americano, não cheguei a ter a impressão que agora tenho ao visitar o do Sul. E com a rapidez com que este se desenvolve é lógico presumir que ele possa, dentro de meio século, ser o que é hoje o do Norte.

    O Brasil, porém, ainda possui algo de diverso, dado pelas suas disposições para a formação de um novo tipo de civilização, não baseada em exércitos ou em dinheiro, mas no sentimento e no coração. Existem outras razões e todas podem resumir-se em quatro pontos:

1) O Brasil possui um território imenso, cheio de riquezas naturais, que só esperam a mão do homem para ser aproveitadas. Muitas vezes maior que a Europa, fértil e num clima que torna fácil a vida, pode abrigar até 500 milhões de habitantes. Possui hoje apenas a décima parte. Tem, portanto, em estado potencial, todos os recursos materiais necessários a um grande desenvolvimento.

2) O Brasil é a terra da liberdade e da tolerância. Ali acham meio de viver pacificamente todas as raças do mundo, conseguindo assim fundir-se, naquele imenso melting-pot. E sabemos que a natureza se regenera pela fusão de tipos diversos, ao passo que o princípio racista é antivital. Todas as terras do mundo, pode-se dizer, tem hoje seus representantes no Brasil, que assim as condensa como exemplares, formando um todo que se funde numa raça nova, que pode ser considerada síntese de todas as outras. E a latina sobressai como a maior da história na linhagem dos homens de gênio. O Brasil está preparado, desse modo, por seu universalismo, para ser o berço de uma nova civilização, de que a universalidade é justamente a característica principal. O mundo caminha para as grandes unidades,  e os patriotismos, em sentido, exclusivista e agressivo, da velha Europa, estão sendo hoje rapidamente  limitados pelas leis da vida, por serem contraproducentes para seus fins evolutivos. Por isso, o juveníssimo Brasil se encontra mais adiantado que a Europa dividida e belicosa, adiantado numa idéia mais vasta, de nacionalidade pacífica e compreensiva. Por esse motivo, o Brasil é mais apto que a velha Europa para realizar a ideia da unidade, que é a ideia do futuro.

3) O Brasil é jovem. o ponto de chegada da civilização européia é para ele o ponto de partida. A Europa, milenária, rica de criações do passado, hipercrítica na sua maturidade, densíssima de população, é a árvore carregada de frutos e sementes, à espera de que o vento os leve para longe, para frutificar em terras virgens. Esta é a lei da vida: que os melhores saiam da Europa para fecundar os povos jovens, que a olham com admiração e desejam ardentemente que seu pensamento, sua civilização, sua vida madura fecundem sua existência nova. Não está distante o dia em que a Europa será o que foi a Grécia, vencida, em face de Roma: vencida e mestra. E a luz virá sempre de Roma, ainda viva no pensamento do mundo.

    O Brasil começa sua vida com os mais avançados recursos da civilização: com o arranha-céu, o automóvel, o aeroplano, o rádio, a televisão, meios novos que na Europa devem substituir os recursos mais antigos, antes em plena eficiência: estradas, ferrovias, construções antigas etc., que eram, outrora, a base da civilização.

    O mesmo no capítulo das ideias. O Brasil é terreno desimpedido, pronto para assimilar o novo. Na Europa, tudo é lugar tomado, toda ideia já foi fixada na vida em formas concretas que constituem, hoje, uma barreira ao novo e o estorvam a cada passo. Sua filosofia é todo um requinte de sofisma e bizantinismo, ao passo que a vida nova pulsa de ideias simples, fortes e grandes. E quem possui esse gênero de ideias, não pode encontrar terreno apropriado numa Europa entregue a todas as sutilezas da decadência, mas, só em países novos, que daquelas ideias estão ansiosos, porque elas são, em sua força simples e grande, substancialmente vitais e eles, por instinto, o sentem.

4) Existe, finalmente, no Brasil, uma outra qualidade, de que falamos ao início desta enumeração. É o sentimento, o coração. Não foi sem motivo que o Brasil foi definido: 'o coração do mundo' e 'a nova pátria do evangelho'. Encontram-se no Brasil as raízes daquele sentimento de bondade, que é a qualidade humana que, evolvendo, se torna a mais apropriada a transformar-se em amor evangélico. As potências bélica e econômica, por mais desejem evolver, partindo de uma semente de natureza completamente diversa, jamais poderão atingir o amor evangélico.


DEPOIS DA TERCEIRA GUERRA: UM NOVO HOMEM


    Os senhores do ouro e do poder militar do mundo poderão sorrir de tudo isso. A vida, porém, é de tal modo organizada que não pode ser construída somente com esses dois meios. À semelhança do corpo humano, tem necessidade não apenas da inteligência para compreender e de braços para trabalhar e lutar, mas, também do coração, para amar. Assim como a família precisa não somente do pai, que luta, ganha e dirige, mas, também do afeto da mulher, que cria e educa no amor, do mesmo modo a humanidade necessite também de povos que representem, no seu grande organismo, esta nobre função da bondade e do amor, da proteção e da conservação. No seio da humanidade são indispensáveis os povos encarregados da função de coesão e unificação, realidade que o Brasil já vive, oferecendo-se como exemplo ao mundo.

    Tudo isso poderia ser considerado secundário em outros momentos históricos, mas, não o é atualmente. Hoje, o tipo biológico do condutor de exércitos, o ideal nietzschiano do homem da força, está cada vez mais perdendo o valor, porque claramente desacreditado pelos insucessos e ruínas das duas últimas guerras. É hoje um tipo falido. E seus imitadores se encaminham para o mesmo fim, porque atualmente a história toma outra direção. A nova, a terceira guerra mundial sepultará definitivamente tal tipo biológico no passado pertencente ao involvido obtuso e feroz. O novo homem de Estado, o novo tipo de chefe, deve ser cada vez menos guerreiro e mais inteligente até à espiritualidade.

    Essas qualidades, que se encontram no Brasil, são agora ratificadas pela nova direção da história, levadas a primeiro plano, tornadas eficientes por uma inesperada necessidade delas que a vida terá, para continuar. Será justamente depois das grandes destruições que, finalizada a próxima guerra, a força, que julgava sua a vitória, deixará de existir, operando sua conclusão; será depois dessas destruições que a vida terá necessidade de bondade, amor, compreensão, colaboração, paz, para reconstruir-se e curar suas chagas. Cética, então, de tudo que terá falido numa ruína total, estará faminta de outras coisas e avidamente as procurará. E que Nação do mundo lhe poderá oferecê-las?     

    A humanidade derrotada, traída pela força e pela riqueza em que somente acreditou, traspassada de frio por um egoísmo que só lhe deu desolação, procurará aquecer-se num sentimento de bondade que elimine suas lutas. Eis a grande função histórica do Brasil, se ele desde agora para ela souber preparar-se, se souber exercê-la amanhã, pois a história está pronta a confiar-lha.   






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