PIETRO UBALDI NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA


Medeiros Corrêa Júnior


in Revista Terceiro Milênio n. 4 - Agosto e Setembro de 1952.   



  Pietro Ubaldi ocupa uma posição singular na literatura de nosso tempo. Escrevendo numa Europa toldada por tão dolorosas aflições e vampirizada pela voracidade de tantas guerras, melancólica e desesperançada, num clima de insegurança e pessimismo, sua obra deveria, pela fria lógica dos fatos, revestir-se de uma grossa camada de tristeza. À semelhança de tantos intelectuais europeus, inteligentes, cultos e sagazes, de seu tempo, Ubaldi poderia dar-nos, numa visão apocalíptica da realidade, um quadro clínico desolador do organismo universal. Tal não acontece, entretanto. Pietro Ubaldi, o maior pensador cristão do nosso século, impregnou toda sua obra de um forte e sadio otimismo, de uma alegria surpreendente, apesar de sua existência estar repleta de infortúnios e de dores acerbas. Ele não se faz profeta do desespero, numa hora gravíssima a história do mundo, quando os mil tentáculos do mal arrastam a humanidade para os extremos do desânimo, do tédio e da impotência criadora. Por isso mesmo seu pensamento vigoroso tem um sentido de heroísmo, de coragem moral, de confiança na capacidade do homem para reconstruir e marchar ao encontro do porvir. Toda a existência de Ubaldi vem sendo preparada para esse afanoso trabalho de não descrer da ressurreição espiritual do homem moderno, sem ideal e sufocado por uma técnica que ele mesmo inventou para o seu comodismo incorrigível. Sua atividade literária teria de refletir, forçosamente, esse dinamismo íntimo e ardente em que ele vive, no seu labor magnífico de lançar os fundamentos para a nova civilização que está para surgir no planeta. Naturalmente sua visão penetrante identifica um mundo em ruínas, uma sociedade materialista insustentável, uma concepção de vida arcaizada, ideias gastas e instituições fossilizadas, sistemas sociais e políticos, econômicos e morais, científicos e filosóficos incapazes de nutrir a alma faminta do homem novo, revelando tudo isso um ciclo histórico em agonia, uma fase evolutiva no derradeiro transe. Mas a preocupação constante de Pietro Ubaldi é mostrar as possibilidades da reconstrução, o método a seguir, os princípios a aplicar, afim de que a crise tempestuosa de nossos dias possa ser superada e a humanidade ser realmente feliz. Os livros de Pietro Ubaldi, portanto, permanecem muitos distantes daquela leviana e inútil l'art pour l'art, para assumir uma feição eminentemente humanística, do melhor humanismo que a civilização já conheceu, porque coloca o homem nas sendas verdadeiras da vida, conhecedor do seu destino e senhor do seu futuro. Tais, de um modo geral, o pensamento e o ideal de Pietro Ubaldi, falando à consciência espiritual do século vinte coisas graves, profundas e úteis, numa eloquência austera e solene, mas igualmente cheia de compaixão pela humanidade decaída e desorientada. 

    Numa carta que Ubaldi endereçou aos amigos da América Latina, ele focalizou as linhas mestras da sua literatura espiritualista e esclareceu a sua posição em face dela, com estas palavras: "A obra a que me refiro não é minha, mas escrita por inspiração do Alto e pelo Alto ditada. Tenho por missão divulgá-la entre os sequiosos de verdade, e para isso nasci". 

    O primeiro livro escrito por Pietro Ubaldi é o hoje universalmente famoso "A Grande Síntese", já em quarta edição brasileira, onde se encontra a chave para a solução de todos os problemas da ciência e do espírito. Nenhuma obra se lhe compara, no longo acervo intelectual da humanidade. Velhas questões, que alimentaram séculos de polêmicas religiosas e filosóficas encontram, no monumental sistema filosófico desse livro, a solução lógica.

    A Europa pode apresentar hoje um ou outro escritor brilhante no campo da ficção, da poesia, da crítica, mas nenhum como Pietro Ubaldi, cuja literatura esteja a serviço da evolução humana pela solução dada aos magnos problemas da coletividade terrestre em todos os setores da vida. Os resultados das conclusões maravilhosas de Ubaldi não se apresentam sob a forma de abstrações imprecisas, mas se revestem dessa tonalidade máscula de uma ciência certa. Nem ele pode ser olhado como o teórico de uma utopia, porque suas antecipações estão sendo confirmadas pelos cientistas, matemáticos e pensadores, e uma estranha beleza anima seus escritos.

 

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